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LUZ, TEMPO E MEMÓRIA: HELIOGRAFIA E UMA IMAGEM QUE MUDOU O MUNDO

  • Foto do escritor: Paula da Rocha e Paulo Preto
    Paula da Rocha e Paulo Preto
  • 12 de jan.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 19 de jan.

O ano de 2026 acaba de começar e, com ele, inauguramos este espaço de troca: a primeira publicação oficial do Blog da Lumina. É curioso como, muitas vezes, atravessamos novos começos sem perceber a importância do momento. Essas fases muitas vezes carregam incertezas e inseguranças, e conseguimos enxergar o impacto de nossas escolhas apenas com o distanciamento do tempo. Essa reflexão nos transporta a dois séculos atrás. Naquela época, Joseph Nicéphore Niépce realizava algo impensável: utilizando betume da Judeia sobre uma placa de estanho, ele fixou o que hoje é reconhecido como o primeiro registro fotográfico permanente da história. A obra, batizada de Vista da Janela em Le Gras, era uma visão tímida de telhados e chaminés na Borgonha, mas representava o nascimento de uma nova era para a humanidade.


Niépce batizou o processo de heliografia, um nome poético que define essa criação de imagem em sua essência: escrita feita pela luz do sol - do grego: helios (sol) e graphein (escrever ou gravar). Era o início de uma revolução visual onde a própria luz fazia o trabalho que os artistas faziam à mão por séculos. Mais do que um experimento químico, a heliografia foi a semente de tudo o que consumimos visualmente hoje. Imagine o impacto de ver, pela primeira vez, o mundo real "impresso" em uma superfície sem o traço de um pintor; ali nascia a capacidade de congelar o tempo e a realidade, transformando a forma como o homem se relaciona com a própria memória.


Vista da Janela em Le Gras: a imagem processada onde conseguimos distinguir as formas capturadas por Niépce em sua propriedade na Borgonha.


Embora celebremos este marco agora, a história da fotografia guarda nuances e mistérios. A data tradicionalmente aceita é o verão de 1826, mas o consenso entre historiadores não é absoluto. Alguns, baseando-se nas incertezas das cartas de Niépce e na própria natureza técnica do experimento, situam o feito entre 1826 e 1827. Naquela época, o tempo de exposição era tão longo, variando de 8 horas a vários dias sob o sol, que a precisão de um dia ou mês exato se perdia no processo. Apesar da falta de uma prova documental irrefutável sobre o dia específico, a monumentalidade do feito permanece: foi um passo concreto para capturar o mundo como ele é, de forma autônoma.


Independentemente da precisão exata do calendário ou da autoralidade da primeira pessoa a consolidar uma imagem escrita com luz, há também a possibilidade de o pioneiro desta invenção ter sido Hercule Florence, mas esse é um papo para outro post; o fato é que essa invenção mudou o mundo de forma irreversível. A fotografia deixou de ser um experimento de laboratório para se tornar a linguagem universal que nos conecta. Daquela placa de estanho rudimentar às câmeras digitais, o desejo humano permanece o mesmo: a busca por imortalizar o que é efêmero e por dar voz à nossa visão particular sobre a existência.


Neste início de 2026, nosso desejo é que você continue escrevendo suas próprias histórias através da luz. Que possamos seguir "escrevendo com o sol", registrando emoções e instantes com o mesmo encantamento que Niépce sentiu há exatos 200 anos ao ver aquela paisagem surgir na placa. Que este novo ano traga muita luz para todos nós - em todos os sentidos! Celebramos com entusiasmo este bicentenário, honrando o passado para transformar o futuro da nossa arte.


E para você, qual o valor de registrar o tempo através da luz? Conte para a gente nos comentários!




Paula da Rocha e Paulo Preto, Lumina Cultural

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