ANTES DA FOTOGRAFIA, FOTOGRAFIAS
- Paula da Rocha

- 19 de jan.
- 4 min de leitura
Engenhocas e invenções para desenhar, o prestígio e a evolução nas belas artes.
No universo das belas artes, o período que antecedeu o que hoje chamamos de fotografia foi marcado por um mercado extremamente competitivo e tecnológico. Diferente da imagem romântica do artista dotado apenas de talento natural e pincéis, os grandes mestres operavam em um cenário onde o domínio das melhores tecnologias de representação garantia o prestígio e o sucesso comercial. Em cada época, ter acesso aos instrumentos certos era o diferencial que permitia a criação de obras com retorno financeiro garantido aos artífices.
A produção de mestres como Jan van Eyck, em O Casal Arnolfini (1434), ou a maestria de Johannes Vermeer e Caravaggio, exemplificada em obras como Judith Decapitando Holofernes, levantam questões profundas sobre o uso de lentes, espelhos e projeções que davam suporte ao artista produzir obras com um nível de realismo que beirava o impossível para a época, como a obra The Arnolfini Portrait, (O retrato de Arnolfini), de 1434 pelas mães de JAN VAN EYCK.

David Hockney, em seu livro e no documentário da BBC, sugere que essas pinturas apresentam uma precisão ótica que dificilmente seria alcançada apenas pelo olhar livre. Para Hockney, essas engenhocas eram "armas secretas" dos artistas: o fato de não haver registros de patentes ou menções explícitas em diários reforça a ideia de que esses métodos eram guardados a sete chaves para manter a vantagem competitiva no mercado da arte.
Para compreendermos o impacto desse prestígio na época, podemos comparar as grandes encomendas de pintura com o que representam hoje as superproduções da Netflix. Assim como os estúdios atuais utilizam as tecnologias digitais mais avançadas para criar mundos verossímeis e atrair audiências globais, os pintores do passado utilizavam a ótica para entregar um produto visual de alto impacto que definia o padrão de qualidade e realidade de sua geração.
Antes da fotografia: fotografias
O sistema das belas artes foi aprimorando seu aparato ótico à medida que novas lentes surgiam no mercado, integrando-as ao fazer artístico cotidiano. A prova de que essa tecnologia já era parte do imaginário pode ser vista na pintura: A Câmera Obscura (1764), de Charles Amédée Philippe van Loo, onde o dispositivo aparece explicitamente. Mary Warner Marien explora essa corrida tecnológica, apontando que o objetivo era tornar o trabalho do artífice mais rápido e preciso. Diante da imagem projetada e perfeita, surgiu o questionamento inevitável: e se, em vez de desenhar manualmente essa projeção, ela pudesse ser fixada de forma permanente por meios físicos ou químicos?
Essa busca pela fixação da imagem não foi um evento isolado, mas uma rede de tentativas simultâneas que Jae Emerling descreve como o conceito de "antes da fotografia, fotografias". Em 1826, Joseph Nicéphore Niépce conseguiu realizar a primeira imagem conhecida da janela de sua casa em Le Gras, exigindo horas de exposição ao sol. Simultaneamente, o franco-brasileiro Hercules Florence, radicado em Campinas, realizava experimentos pioneiros e foi um dos primeiros a utilizar o termo "fotografia" para descrever seus processos de registro. Em 1839, Louis Daguerre apresentou o daguerreótipo ao mundo, um processo que criava imagens ricas em detalhes em uma placa de metal, mas que não permitia cópias. Ao mesmo tempo, na Inglaterra, William Henry Fox Talbot desenvolvia o calótipo, um sistema que utilizava negativos de papel e permitia a reprodução de múltiplas imagens, estabelecendo a base do que seria a fotografia moderna. Hippolyte Bayard também apresentou seu processo de impressão direta em papel, embora tenha sido ofuscado pelo apoio do governo francês a Daguerre. Cada um desses inventores, com suas técnicas distintas, representava um fragmento de uma descoberta coletiva que estava "no ar". O resultado desses esforços dispersos não foi apenas uma invenção técnica, mas a consolidação de uma nova forma de ver e entender o mundo através da luz.
O mito da imagem única
A provocação central que devemos considerar é que a fotografia não nasceu como uma invenção isolada, mas como uma convergência de saberes acumulados. Durante séculos, as imagens projetadas por lentes dentro das câmeras escuras foram efêmeras (comportando-se como um filme sem suporte de gravação). O que chamamos convencionalmente de nascimento da fotografia é, na verdade, o encontro bem-sucedido entre a ótica, que já era uma ciência dominada, e a química, que finalmente ofereceu o suporte para a retenção da luz.
A ideia de um único inventor ou de uma "primeira fotografia" é, portanto, um mito simplificador para uma história muito mais rica e plural. A fotografia é o resultado de uma necessidade cultural de realismo e de uma evolução técnica que envolveu artistas, cientistas e entusiastas ao redor do globo. Antes que a primeira placa fosse revelada, a fotografia já existia no desejo humano e nas projeções que iluminavam os estúdios dos pintores.
Ao desmistificarmos essa origem, percebemos que a fotografia sempre foi uma construção coletiva. Entender esse passado ajuda-nos a olhar para a produção atual de forma mais crítica, reconhecendo que, por trás de cada clique contemporâneo, existe uma herança secular de busca pelo entendimento da luz e da representação do outro.
Referências bibliográficas
EMERLING, Jae. Photography: history and theory. Nova York: Routledge.
HOCKNEY, David. A history of pictures: from the cave to the computer screen. London: Thames & Hudson, 2016.
HOCKNEY, David. BBC: David Hockney's Secret Knowledge. Produção de Mustafa Göktuğ Demir. 2021. Vídeo (1h 12min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=R-0UXBcjlRY. Acesso em: 02 jan. 2026.
MARIEN, Mary Warner. Photography: a cultural history. 3. ed. Upper Saddle River: Pearson Prentice Hall, 2011.



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